Os Juma produzem farinha para gerar renda (Foto: Odair Leal/AR)Os Juma produzem farinha para gerar renda (Foto: Odair Leal/AR)
A noite vai caindo na aldeia do povo Juma e a primeira imagem que se
tem é das três irmãs Mandeí, Maitá e Borehá torrando a farinha de
mandioca colhida dias antes na roça. No entorno da penumbra do forno
feito de barro, elas conversam aflitas sobre a suspeita de malária entre
as crianças e a precariedade no atendimento de saúde e educação na
terra indígena de mesmo nome da etnia.
A aldeia está localizada em um campo de terra batida cercado de uma
densa floresta margeada pelo rio Assuã, um afluente do rio Purus, a mais
de 1.100 quilômetros de distância de Manaus, no município de Canutama,
no sudoeste do Estado do Amazonas -. Uma das regiões da Amazônia
Ocidental mais desprovidas de ações públicas e tensa pela existência de
conflitos fundiários e socioambientais. O acesso via terrestre é pela
rodovia BR 230, a Transamazônica, a partir da cidade Humaitá (AM), na
divisa com o Estado de Rondônia.
Mandeí, 27 anos, que é a cacique da terra indígena, Maitá, 30,
Borehá, 34, e o pai delas, o guerreiro Aruká, de 80 anos (conforme seu
registro de identidade), são os últimos sobreviventes da etnia Juma,
povo da família linguística Tupi-Guarani, denominado Kagwahiva, que
sofreu massacres e quase foi dizimado ao defender o território da
invasão de seringalistas e comerciantes de castanha na década de 60.
O pequeno grupo de sobreviventes chegou ao ano de 2015 em alta
vulnerabilidade social e cultural, segundo a Funai (Fundação Nacional do
Índio).
A reserva continua alvo de invasões por madeireiros, pescadores e
caçadores. Os costumes tradicionais não estão sendo seguidos pelos
jovens e as crianças não têm escola na aldeia e nem estão aprendendo a
ler e escrever na língua Tupi-Guarani.
O dia é 19 de novembro de 2014, quando a reportagem da agência
Amazônia Real ingressou na Terra Indígena Juma, autorizada pela Funai,
para uma visita de cinco dias, e encontrou duas crianças com febre alta:
o bebê de dez meses Thiago Tembu e a menina Mborep, 9 anos, ambos
filhos de Borehá.
Não havia termômetro para medir a febre das crianças. A garota Poteí,
filha de Maitá, também estava doente, com feridas e sangramentos nos
pés.
As crianças doentes são filhos de índios Uru-eu-wau-wau, povo que
formalizou casamentos interétnicos com os Juma em 1999. Dos casamentos
nasceram 13 netos de Aruká.
Na aldeia do rio Assuã estava em tratamento para curar uma malária o
jovem Boatuto Uru-eu-wau-wau, primo do marido de Maitá, Puren, daí a
suspeita da doença entre as crianças.
No dia seguinte, dentro de um dos três compartimentos de uma casa de
madeira, a cacique Mandeí pediu socorro via rádio à Funai de Humaitá
(AM). Ela disse para uma funcionária do posto Pupunha que era preciso
providenciar o atendimento de emergência às crianças junto a Sesai
(Secretaria Especial de Saúde Indígena), do Ministério da Saúde.
“Atento Pupunha, Pupunha Juma. Temos duas crianças doentes aqui com
febre de malária. O pé de Poteí está machucado. A Sesai não vem atender a
gente?”, pergunta a cacique Mandeí no equipamento de radiofonia.
Após quatro tentativas de pedido de socorro, Mandeí ouviu a
funcionária da Funai dizer que “a Sesai não tinha carro para atender o
chamado naquele momento”.
Borehá então decidiu colher na floresta ervas para dar um banho no
pequeno Thiago, que estava com tremores da febre alta. Depois do banho,
ela deitou-se numa rede, atada dentro da casa de madeira, para embalar
os dois filhos doentes.
A cacique Mandeí pede socorro pelo rádio (Foto: Odair Leal/AR)
Mborep, a mãe Borehá e o bebê Thiago: febre alta (Foto: Odair Leal/AR)
Mandei trata os pés da menina Poteí (Foto: Odair Leal/AR)
A casa de madeira foi construída pela Funai em um terreno de grande
declive que desequilibra qualquer pessoa que entra nela. Há goteiras
quando chove. O lugar aloja a cozinha da aldeia, os mantimentos e os
dormitórios de Aruká e dos visitantes.
Na área central do campo de terra batida da aldeia há mais três casas
de madeira, cada uma tem três compartimentos, sendo uma residência de
Mandeí, uma de Maitá e outra de Borehá.
Um tapiri tradicional, feito de palha por Aruká, é o local onde os
indígenas fazem as refeições, conversam e assistem à TV por uma antena
parabólica _ isto quando tem combustível para gerar energia do pequeno
motor, comprado com o dinheiro dos próprios indígenas.
Na aldeia Juma não há saneamento básico e nem água encanada. A
temperatura chega a 32 graus, na sombra, neste início da enchente na
bacia do Purus. A água de beber e de tomar banho é puxada do rio Assuã e
não é tratada. Os banheiros são precários. Moram no lugar 18 pessoas
desde final de 2012.
Sem o atendimento médico, Mandeí, que é também agente de saúde da
Sesai, foi tratar o pé de Poteí com anticéptico e uma pomada, medicação
armazenada numa prateleira de sua casa, que é improvisada de “postinho
de saúde”.
A situação da falta de atendimento de emergência na aldeia Juma fez a
cacique contar à reportagem dois episódios marcantes na história do
povo sobre a precariedade na saúde.
O primeiro, mais recente, foi o risco de morte que enfrentou quando atacada por uma cobra em março de 2014.
“Fui caçar e fui picada por uma cobra. Nem sei como consegui chegar
aqui na aldeia. Passei um rádio (para Sesai). A Funai é que veio aqui e
me encontrou. Meu pé estava inchado, não conseguia mais andar. A Sesai
mesmo não dá muito apoio pra gente. A gente briga na Sesai, mas o
pessoal não está nem aí pra gente. O pessoal vem assim, um mês, dois
meses, três meses, mas não dá apoio (contínuo). Quem disse que podia
fazer o postinho de saúde aqui era a Sesai e não fez”, disse Mandeí
Juma.
O outro episódio relatado foi a morte de sua mãe, em 1996. Mborehá,
também chamada de Mariná, morreu de uma doença desconhecida e sem
assistência de saúde.
“Agora que eu falo o português direitinho, eu agora entendi que a
Funai acha que a gente não sabe de nada. Mas naquela época que a minha
mãe morreu, a Funai deixava a gente jogado. É por isso que minha mãe
pedia socorro, a gente pedia socorro pro branco. Minha mãe morreu por
causa de saúde, porque ninguém estava nem aí pra gente. Mesmo que hoje,
Funai não está nem aí pra gente. A gente se acha abandonada pela Funai e
pela Sesai, os dois”, afirma a cacique.
Maitá, o casal Inté e Marimã, a mãe das Juma, Mborehá (em pé), e Mandeí em 1993 (Foto: Adolpho Kilian Kesselring/ISA)
Os massacres e risco de extinção da etnia
Relatos de historiadores dizem que os índios Juma eram numerosos, em
torno de 15 mil pessoas, no século 18. A invasão constante de
garimpeiros em busca de ouro e diamantes no território provocou a
migração da etnia do Alto Tapajós, no Pará, para as regiões dos rios
Madeira e Purus, no sudoeste do Estado do Amazonas. Eles não aceitavam
ser “amansados” pelos “brancos”.
Estudo do antropólogo Günter Kroemer (1939-2009), que conviveu com os
indígenas nas décadas de 80 e 90 pelo Cimi (Conselho Indigenista
Missionário), afirma que após sucessivos massacres eles foram reduzidos a
cem pessoas, em 1943.
Em 1964, a etnia sofreu o maior massacre quando seringalistas e
comerciantes de castanha de Canutama (AM) invadiram a terra indígena
para instalar as frentes de extrativismo. Os acusados não foram punidos,
apesar da Polícia Federal ter aberto um inquérito à época. “Mataram
mais de 60 índios. Crianças, mulheres e homens foram mortos a tiros na
defesa do território”, relata Kroemer, em documento de 1985.
Os Juma chegaram à década de 90 em risco de extinção por consequência
dos massacres, das doenças, da violência de não-indígenas, do abandono
dos órgãos públicos e da impossibilidade da realização de matrimônios
entre as jovens.
A sociedade Kagwahiva é caracterizada por um sistema patrilinear em
que cada pessoa é metade do pai. Assim, os casamentos são realizados com
indivíduos de uma metade oposta.
No início da década de 90, o guerreiro e caçador Karé Juma foi
atacado por uma onça pintada e morreu aos 35 anos de idade. Segundo
estudo do antropólogo Edmundo Peggion, para o Instituto Socioambiental,
ele era o único homem da etnia que poderia casar com uma das três
jovens, dando continuidade ao povo Juma.
O capítulo drástico na cultura do povo Juma aconteceu em 1998.
Conforme documento do Ministério Público Federal do Amazonas, o
administrador da Funai de Porto Velho (RO), Sadi Olívio Biavalli,
retirou de forma ilegal, e sem estudo antropológico, os últimos seis
índios do grupo da terra tradicional.
Biavalli alegou em documento, inclusive um Boletim de Ocorrência da
Polícia Civil, que as adolescentes do grupo estavam sendo exploradas
sexualmente por ribeirinhos e pescadores não indígenas de Canutama.
Borehá estava grávida.
As jovens Mandeí, Maitá e Borehá, o pai Aruká, e o casal de tios
idosos, Inté e Marimã, foram levados à Casa de Saúde do Índio (Casai) de
Porto Velho. A remoção deles da reserva acabou apressando os casamentos
interétnicos com índios Uru-eu-wau-wau, em 1999.
Durante o primeiro ano de afastamento do território tradicional, o
casal de tios, Inté e Marimã, morreu “provavelmente de tristeza e
inadaptação ao novo lar”, disse a Presidência da Funai à agência
Amazônia Real, em 2013.
Aruká e suas filhas foram morar na aldeia do Alto Rio Jamari, em
Guajará-Mirim (RO) e formaram famílias com os Uru-eu-wau-wau, que são
também denominados Kagwahiva.
A cacique Mandeí Juma contou à reportagem suas lembranças da vida na aldeia do rio Assuã antes de 1998.
“Quando eu era criança, quem vivia aqui era meu pai, minha mãe, meu
tio Marimã, minha tia Inté, minhas irmãs Borehá e Maitá. Tivemos uma
irmã (mais velha) que morreu quando éramos pequenas. Lembro também do
Karé, que era solteiro. A onça pegou o Karé. Ele está enterrado no
cemitério do rio Joari (afluente do Assuã). Aprendemos a língua com
todos eles”, disse.
Retorno ao território tradicional
A Terra Indígena Juma ficou abandonada, mesmo demarcada e homologada
com 38.351 hectares, em 2004. A Coordenação das Organizações Indígenas
da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Conselho Indigenista Missionário
Cimi), ligado à Igreja Católica, denunciaram que a Funai tentava
assentar na reserva 16 famílias de índios Guarani Mbya.
Em 2008, ao acatar ação do Ministério Público Federal contra a Funai,
a Justiça Federal determinou que o órgão indigenista promovesse o
retorno dos índios Juma da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, da região do
Alto Jamari, em Guajará Mirim (RO), à reserva em Canutama (AM).
A Justiça também proibiu que a Funai assentasse as famílias Guarani Mbya no território do rio Assuã.
A ação, que denunciou danos morais à cultura da etnia Juma, diz que a
Constituição brasileira veda a remoção dos grupos indígenas de suas
terras. “Salvo com autorização do Congresso Nacional, em caso de
catástrofe e epidemia eu ponha em risco a população, mas garantido o
imediato retorno logo que cessasse o risco”.
Na decisão, a juíza Maria Lúcia Gomes de Souza determinou que a Funai
providenciasse para o retorno: transporte de veículo e barco potente
para uso exclusivo dos indígenas, alimentação, visitas periódicas das
equipes de saúde, promovesse ações de infra estrutura (equipamentos de
comunicação, estoque de combustível) para viabilizar a subsistência do
grupo na Terra Indígena Juma “com dignidade para minimizar os danos
causados pela remoção inconstitucional”.
Contribuiu para o retorno do povo ao território tradicional a
situação do guerreiro Aruká. Ele estava deprimido na reserva indígena
Uru-eu-wau-wau e com saudade de sua terra. Aruká é o único da etnia que
pode ensinar aos filhos e netos a cultura tradicional do povo.
O retorno definitivo dos Juma ao território tradicional começou em
2012 e foi concluído pela Funai em 2013, após 14 anos de afastamento
deles da terra e quatro tentativas de regresso mal sucedidas entre os
anos de 2008 a 2011.
Segundo a cacique Mandeí Juma foi difícil deixar a aldeia.
“(Servidores da Funai) chegaram aqui dizendo que a gente era pouco,
que minha tia estava doente, meu tio estava doente também. E falaram que
era melhor a gente sair daqui. E que a gente era para se inteirar com
os Uru-eu-wau-wau porque eles são a mesma da língua da gente. A gente
não queria sair daqui, não. E fomos para o posto do Alto Jamari. Foi
muito difícil. Os meus tios ficaram muito tristes porque saíram daqui.
Ficaram apavorados e morreram lá. Foi muito triste. A gente pensava que
ia sair, mas que ia voltar logo. E a gente ficou lá. Eu saí daqui, acho
que com 11 anos de idade”, afirmou.
Crianças viajaram para ter atendimento médico
No sábado, dia 22 de novembro, na véspera da reportagem da agência
Amazônia Real deixar a Terra Indígena Juma, a Secretaria Especial de
Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde deu o retorno ao pedido de
atendimento de emergência para os indígenas.
A cacique Mandeí recebeu uma mensagem pelo rádio da aldeia de que uma
equipe de saúde iria atender as crianças doentes, mas os índios
precisariam se deslocar até a Vila Nossa Senhor do Carmo do Assuã, em
Canutama.
A vila fica distante da aldeia a cerca de um quilômetro de caminhada
na floresta e mais uma hora de viagem de barco (de voadeira com motor de
popa) da aldeia. Como era cheia (enchente) do rio Assuã, o trecho
estava navegável.
No final da manhã partiram da aldeia Juma, Borehá com os dois filhos:
Thiago e Mborepe; Maitá e o marido Puren, que é o piloto da voadeira,
as filhas dela Poteí e Morangüi, que apresentava febre alta, a cacique
Mandeí com a filha Tejuvi, que também tinha febre.
Maitá, Puren e Poteí, que não foi levada ao hospital para serem
verificadas as feridas nos pés, regressaram à aldeia na tarde do mesmo
sábado. Maitá Juma disse à reportagem que a equipe da Sesai não levou o
medicamento pediátrico para medicar as quatro crianças com suspeita de
malária. “Eles foram removidos para receber atendimento na Casai (Casa
de Saúde do Índio) de Porto Velho. Lá, eles vão para um hospital”, disse
Maitá.
Para o atendimento de emergência em Porto Velho, os Juma e
Uru-eu-wau-wau precisam se deslocar de veículo da Vila Nossa Senhora do
Carmo do Assuã, em Canutama, num percurso de 120 quilômetros pela BR 230
(Transamazônica) e mais 200 quilômetros pela BR 319, até a capital de
Rondônia.
Antes, as viagens eram mais curtas até a cidade de Humaitá (AM), mas a
Casa de Saúde do Índio, do Ministério da Saúde, foi incendiada durante
conflito de não-índios e indígenas Tenharim, em 2013, e não foi
reconstruída uma nova sede.
Com a partida das crianças doentes e de suas mães para Porto Velho
(RO), as famílias se separaram, permanecendo na aldeia a família de
Maitá, seu pai Aruká, um total de 12 indígenas, além do sertanista
técnico da Funai, Áureo César de Oliveira, e a equipe de reportagem da
Amazônia Real.
A ausência de uma escola na comunidade indígena Juma também vai separar, em breve, as famílias Juma e Uru-eu-wau-wau.
Até início de fevereiro de 2015, nove filhos em idade escolar
viajarão a aldeia dos avós paternos Uru-eu-wau-wau para ter acesso à
escola de ensino fundamental, onde estão matriculados, no Alto Rio
Jamari, em Guajará-Mirim (RO), um percurso de 800 quilômetros da aldeia
do rio Assuã, em Canutama.
“As crianças não vão ficar aqui (na aldeia Juma) com a gente por
causa do estudo delas. Se tivesse a escola aqui, ficavam todos juntos.
Passariam apenas as férias lá (no Alto Jamari). Nossa preocupação é que
estaremos divididos por causa da escola”, disse Maitá Juma, 30 anos.
A escola na aldeia Juma deveria ter ficado pronta no ano de 2013. A
Funai disse à reportagem que a responsabilidade de construção da escola
na reserva é da Prefeitura de Canutama. “Esta tem alegado falta de
recursos para viabilizar a obra e manter a unidade com professor”, diz a
Funai.
A Prefeitura nega a falta de recursos. “Estamos aguardando
autorização da Funai para iniciar a construção da escola na aldeia”, diz
o secretário municipal de Comunicação, Fregilsom Rabelo dos Santos.
Crianças brincam no igarapé do rio Assuã (Foto: Odair Leal/AR)
Separação pode enfraquecer cultura
Em Porto Velho, durante o tratamento dos filhos na Casa de Saúde
Indígena, Borehá Juma disse à reportagem no dia 23 de novembro, por
ligação telefônica, que as crianças doentes estavam com malária e
tomaram medicação para o tratamento da doença. Ela contou que encontrou
no local o marido Erowak Uru-eu-wau-wau. Ele estava acompanhando o pai
Payron em tratamento de um câncer.
Apenas no dia 6 de janeiro de 2015, a Sesai respondeu às perguntas,
enviadas pela reportagem em 18 de dezembro, sobre a situação de saúde
das crianças.
A Sesai não confirmou a suspeita de malária nas quatro crianças.
Disse que o bebê Thiago Tembu recebeu atendimento hospitalar, mas para
tratar uma anemia e não esclareceu o tipo da enfermidade. Também não
explicou sobre o estado de saúde das crianças Mborep, Morangüi e Tejuvi.
No final do mês de novembro, o pai de Erowak morreu. Borehá e o filho
Thiago, que recebeu alta médica, e menina Mborep partiram de Porto
Velho para acompanhar a cerimônia fúnebre do sogro na aldeia do Alto
Jamari, em Guajará-Mirim (RO).
Como são parentes diretos, a família de Maitá e Puren Uru-eu-wau-wau
também foi para o enterro e levou os filhos, Shakira, Anaíndia,
Morangüi, Poteí, Kwaimby e Kunhãvé, além dos outros filhos de Borehá:
Puré e Avip; e o filho de Mandeí, Kajuby.
Com a partida das famílias de Borehá e Maitá para o Alto Jamari,
permaneceram na aldeia Juma, até o dia 21 de janeiro último, Aruká e
Mandeí, que retornou da Casa de Saúde do Índio de Porto Velho com sua
filha Tejuvi.
Em contato telefônico com a reportagem da Amazônia Real no dia 22 de
janeiro, a cacique Mandeí Juma disse que saiu da aldeia, em Canutama,
com a filha Tejuvi. A menina estava com dores na barriga. Ambas foram
levadas por uma equipe da Sesai para a cidade de Lábrea (a 60
quilômetros da aldeia Juma) para obter atendimento de saúde. Segundo
Mandeí Juma, seu pai ficou sozinho na aldeia até domingo (25), quando
chegaram dois funcionários da Funai para fazer a proteção do lugar.
Leonardo Cruz Sousa, indigenista e ex-gestor ambiental da ONG
Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, em Rondônia, acompanhou o
regresso dos índios Juma à terra tradicional e trabalhou com etnia entre
2007 e 2014. Ele afirmou que a Funai e demais órgãos do governo federal
têm que cumprir a responsabilidade de proteger o território dos
indígenas Juma, encaminhando para o local servidores para atuar na
proteção, no desenvolvimento de atividades econômicas da etnia, no apoio
das ações de valorização cultural, na saúde e no ensino diferenciado e
bilíngue.
“Provavelmente se os Juma não conseguirem essa ajuda, voltarão à
terra Uru-eu-wau-wau e perderão suas terras para os invasores. A volta
ao território de outro povo enfraquece a cultura Juma e os tornam
submissos e dependentes de outra etnia e da boa vontade de algum
servidor que venha se compadecer deles. Os filhos dos Juma e
Uru-eu-wau-wau provavelmente no futuro brigarão por seu território”,
afirmou Leonardo Cruz Sousa.
Enquanto a Funai e a Prefeitura de Canutama não se entendem com o
problema do ensino na reserva, os Juma vão tentando sobreviver
economicamente com a produção farinha de mandioca artesanal para gerar
renda. “Queremos fazer dez ou 16 sacas para vender em Humaitá. Não
sabemos o que vamos fazer com o dinheiro, mas queremos investir na
aldeia”, disse Mandeí.
Segundo a cacique, em 2013 o povo Juma ganhou o Prêmio Culturas
Indígenas 4ª. Edição – Raoni Metuktire no valor de R$ 15 mil. No diploma
que a indígena recebeu está escrito que o prêmio é realizado pelo
Ministério da Cultura e pela ONG Articulação dos Povos Indígenas da
Região Sul (Arpinsul). O patrocínio foi da Petrobras. Mandeí afirmou que
o dinheiro ajudou na compra de equipamentos para estruturar a aldeia.
Mas não recebeu o valor total do prêmio.
“O prêmio foi pelo documentário realizado, com o apoio da ONG
Kanindé, ‘Retomando o território tradicional da Aldeia Juma’. Eu fui
apresentar em Brasília. O prêmio era 15 mil, mas só depositaram R$ 10
mil. A gente queria o restante do dinheiro”, afirmou a cacique.
“Mesmo faltando os R$ 5 mil do prêmio, que não sabemos para onde foi
esse dinheiro, nós compramos com os R$ 10 mil uma televisão, uma
parabólica, uma máquina tanquinho de lavar roupa, um tanque de concreto,
um gerador e um freezer, tudo para a nossa aldeia”, concluiu Mandeí
Juma.
Mandeí aguarda dinheiro do prêmio (Foto: Odair Leal/AR)
MPF quer atenção urgente da União
Em entrevista à agência Amazônia Real, o procurador do Ministério
Público Federal no Amazonas, Fernando Merloto Soave, responsável pelo
Ofício de Povos Indígenas e Populações Tradicionais, disse que a ação
civil pública nº 2008.32.00.006216-0, movida contra a Funai para
garantir o retorno dos Juma ao território tradicional, está prestes a
ser sentenciada, tendo sido concluída a fase de alegações finais.
Com relação a falta de escola na aldeia e a precariedade no
atendimento de saúde dos indígenas, o procurador Fernando Soave afirmou
que medidas cabíveis serão avaliadas após a Justiça Federal proferir
sentença, o que deve acontecer este ano.
“Há a possibilidade de se cobrar providências dos órgãos competentes
na fase de execução da sentença. A adoção de medidas relacionadas às
condições de infraestrutura para que os Juma possam permanecer com
dignidade em suas terras constituem o objeto da ação como requisitos
essenciais para o retorno definitivo dos Juma ao seu território”,
afirmou o procurador da República.
Sobre a atual situação social e cultural dos índios Juma e suas
famílias dos casamentos com Uru-eu-wau-wau, o procurador Fernando Soave
diz que “é delicada em face da deficiência/ausência de estrutura, apoio e
da recente transição que vivem, precisando especial e urgente atenção
do Poder Público, seja no âmbito local, seja por parte da União/Funai”.
O indígena Raimundinho Parintintin, coordenador técnico da Funai de
Humaitá (AM), afirmou à reportagem que os Juma conseguiram permanecer o
ano todo de 2014 dentro do território com acompanhamento de servidores
do órgão dentro da reserva.
“O recurso que tinha foi financiado pela Coordenação Geral de
Promoção Social e foi até outubro de 2014. Agora não temos mais recursos
para permanecer com um servidor lá. Estão só eles (os índios). Uma das
coisas que vimos na fragilidade deles não permanecerem lá, era a falta
da Funai. Junto com a Funai, eles se sentem mais felizes. Eles não
retornaram por isso”, afirmou o coordenador.
Raimundinho disse que a previsão de investimentos da Funai para as
ações com a etnia Juma era de R$ 60 mil, em 2014. Mas foi
disponibilizada a quantia de R$ 32 mil. O dinheiro, segundo ele, foi
destinado para pagamentos de diárias dos servidores deslocados à reserva
e para apoiar a coleta de castanha e os roçados dos índios.
Sobre o retorno dos Juma à terra tradicional, Raimundinho Parintintin
disse que a ação está concluída. “Pra mim o que possibilitou foi a ação
do MPF. Que ajudou bastante porque a Funai tinha tomado uma decisão
inconstitucional de tirar os indígenas de sua terra demarcada”, afirmou.
A reportagem da Amazônia Real procurou a assessoria de imprensa do
Ministério da Cultura para falar sobre o pagamento do Prêmio Culturas
Indígenas 4ª. Edição – Raoni Metuktire à etnia Juma.
Segundo nota do ministério, o prêmio foi realizado com apoio do
Ministério da Cultura, via Lei Rouanet. Disse que a organização não
governamental Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul)
foi a responsável pela promoção e pagamento do prêmio.
O Ministério da Cultura não explicou o motivo pelo qual o pagamento
do prêmio aos índios Juma foi menor do que o anunciado. O ministério
pediu à reportagem que procurasse Romancil Cretã, da Arpinsul, para que
ele falasse sobre o pagamento da etnia Juma, mas o representante da
organização não foi localizado até o fechamento desta matéria.
As famílias dos casamentos interétnicos
Dos casamentos interétnicos realizados entre os índios Juma e
Uru-eu-wau-wau, em 1999, foram constituídas três famílias com 20
pessoas, sendo 13 netos de Aruká.
Segundo a Funai, esses matrimônios são comuns na Amazônia desde
tempos imemoriais. A diferença é que os dois grupos não se conheciam e
os Juma aceitaram os casamentos como estratégia de garantir a
continuidade da família.
Maitá Juma diz que sua mãe, Mborehá, antes de morrer em 1996, sempre
falava dos casamentos das filhas. “Minha mãe tinha muita preocupação em
saber com quem a gente ia ficar. Não tinha homem Juma para casar com a
gente. Ela pediu para o Rieli (Franciscato, indigenista da Funai que
acompanhou os índios nos anos 90) para trazer outra etnia para casar com
a gente aqui. Aí a gente foi para Porto Velho e juntamos com o Uru-eu”,
afirmou.
À Amazônia Real encontrou 18 pessoas das famílias vivendo na aldeia
Juma, em Canutama (AM), na visita à terra indígena no mês de novembro
último.
Os indígenas sobrevivem da pesca farta no rio Assuã e seus afluentes
da bacia do rio Purus, da caça, coleta de castanhas, da roça de
mandioca, milho e frutas, da venda da farinha artesanal no comércio
local, e dos benefícios do programa Bolsa Família. Na aldeia todos
trabalham.
Aruká Juma não tem esposa. Ele casou-se em 1999 com Boropó
Uru-Eu-wau-wau-wau com quem teve uma filha de nome Juvy, hoje com 15
anos, mas o casamento foi desfeito 2007. As duas moram em uma aldeia do
Alto Rio Jaru, em Guajará-Mirim (RO).
Borehá Juma, 34 anos, tem quatro filhos do casamento com Erowak
Uru-eu-wau-wau: a menina Mborep, 9, e os meninos Puré, 12, Avip, 7, e
Thiago Tembu (o primeiro nome em referência ao cantor e compositor
brasileiro Thiaguinho), 10 meses. A reportagem não encontrou Erowak na
aldeia Juma. Ele estava acompanhando o pai em tratamento de saúde em
Porto Velho (RO).
Borehá Juma é também mãe de uma adolescente de 16, nascida de um
relacionamento com um pescador não indígena. A menina foi entregue,
segundo a indígena, para estudar com um casal de missionários
organização da Jocum, em 2006. Ela disse que não autorizou a adoção da
garota. O Ministério Público Federal do Amazonas deve investigar o caso.
Maitá Juma, 30 anos, é casada há quase três anos com Puren
Uru-eu-wau-wau, 39 anos, com quem tem duas filhas: Anaíndia, 2 anos e
oito meses, e Tejuvi Shakira (o segundo nome é em alusão à cantora
colombiana), 1 mês e oito dias. Maitá é mãe também das garotas Kunhãvé,
14, e Morangüi, 7, e do garoto Kwaimby, 12, ambos do casamento com
Puruwá Uru-eu-wau-wau, que morreu atingido por um raio, em 2009. Também
estava na aldeia o jovem Boatuto Uru-eu-wau-wau, primo de Puren.
Os índios Uru-eu-wau-wau, também denominados de Jupaú, que quer dizer
“os que usam jenipapo”, viviam em decréscimo populacional até o final
da década de 90 em razão de conflitos e doenças, segundo estudo da ONG
Kanindé. Para aumentar a população, há registros de casamentos de Uru-eu
com índios da etnia Arara e Juma.
À reportagem, o marido de Maitá, Puren Uru-eu-wau-wau disse enfrentou
uma reação do pai para casar com ela e morar na terra indígena Juma.
“Eu gosto dela e gosto da aldeia dela também. Aqui tem peixe demais.
Na aldeia Uru-eu tem caça, mas é muito longe (está escassa). O
madeireiro não para de roubar madeira e mata os bichos. Eu tenho pai e
irmãos. Minha mãe não tenho mais. O meu pai pediu para eu ficar no Alto
Jamari. Ele disse que minha mulher tinha que vir sozinha. Eu disse não.
Eu gosto dela. Aí o meu pai falou assim: eu sei que você trabalha, você é
homem, não vou mais me preocupar porque Uru-eu homem sabe se virar”,
disse o indígena.
Mandeí Juma, 27 anos, casou com Kwari Uru-eu-wau-wau, com quem teve
três filhos: os meninos Byteté, 14, Kajuby, 5, e a menina Tejuvi, 10.
Mas, segundo ela, o casamento também foi desfeito. Kwari, que é
professor, tem outra mulher da etnia Uru-eu. Byteté, que é estudante,
mora com o pai no Alto Jamari (RO).
“O casamento foi bom. Eu tenho três filhos. Eu pensei que iria viver
para sempre lá (na aldeia Uru-eu-wau-wau), mas não foi isso que
aconteceu. Foi muito importante voltar a terra do Juma. O meu pai está
idoso. Só vai ficar três da gente, o puro do Juma. A gente vivia feliz
também lá no Uru-eu, mas não era tanto. Lá não tinha rio para pescar, só
tinha caça. Quando retornamos para a terra do Juma ficamos mais
felizes. Sinto que aqui que é meu lugar”, disse Mandeí Juma.
Os Uru-eu-wau-wau formam uma sociedade patrilinear. Cada pessoa
pertence à metade do pai, como ocorre com os Juma. Maitá disse que
quando seus filhos nasceram, os pais Uru-eu-wau-wau é que escolheram os
nomes das crianças.
Esses filhos, segundo ela, deverão se casar com parentes de grupos
opostos dos pais Uru-eu-wau-wau. Esse sistema de casamento e parentesco
faz a indígena falar, pela primeira vez, sobre a extinção da etnia Juma.
“Não existe muita diferença da língua do Juma para o Uru-eu. É muito
igual à cultura dos dois. Eu acho que as crianças se sentem Juma e
Uru-eu-wau-wau. Mas a gente não lembra mais da nossa cultura. A festa da
menina moça (para celebrar a primeira menstruação) de Kunhãvé foi feita
na cultura Uru-eu. Então eu acho que está aumentando mais o Uru-eu. De
Juma só é eu, minhas irmãs e o velho (Aruká). Com certeza vai nascer
mais Uru-eu. É por aí que o Juma vai acabar”, disse Maitá Juma.
Por: Kátia Brasil
Fonte: Amazônia Real